sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

o meu lado


toda a beleza é efémera se for só isso


os moliceiros têm vela (63)


o meu lado

escrevo de um país ao lado
de um povo sem casa
nem abrigo desempregado
ou mal pago doente
de não haver orçamento
e não saber o que isso é

escrevo de um país ao lado
de meninos mascarados de homem
mamando no biberão do tacho
cuspindo insultos sem pudor
sobre quem nada pode

escrevo de um país ao lado
marginalizado por ter sido sempre
o motor do barco e ser lançado
borda fora pelos passeantes de serviço
como se lastro a mais depois de usado

cansa-me esta gentinha de gravata
fato pendurado no corpo
passeando o arroto em alta cilindrada
pelas avenidas da minha vergonha
escrevo de um país ao lado

e sei qual é o meu lado


(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

https://ahcravo.wordpress.com/2015/02/13/os-moliceiros-tem-vela-63/