sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

homens de palavra




serem de pedra
as palavras
salgadas cristalinas
de homens

homens de palavra

esculpi no tempo
a tua voz o teu nome
fizeste-me fiz-me
no tempo em que

continuo de pedra ainda

a vida por vezes
é que tem sal a mais

(morraceira; achegar; enfeitar; 2019)

https://ahcravo.com/2019/12/06/a-beleza-do-sal-71/

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Uma Poesia Para Raul - V



Tempo
Ah! Quanto tempo faz
Parece que foi ontem
As discussões infindáveis
Os segredos do Universo
Revelados no boteco da esquina
Entre uma cerveja e outra
Revoluções traduzidas
Com versos simples
Quantas saudades
Daqueles momentos
Eu o senhor do mundo
No reflexo dos seus olhos azuis

Manoel Hélio Alves, é poeta, natural de Macarani, Bahia.


sexta-feira, 29 de novembro de 2019

é





saem-me dos dedos coisas estranhas
quando tento um desenho
esboço simples de coisas elementares

sinto a música
do ouvido ficou-me apenas o pavilhão
sinto-a apenas

em tudo porém o teu corpo é turbilhão
que desenho sem saber
e toco ao adormecer

(torreira; 2015)

https://ahcravo.com/2019/11/29/postais-da-ria-335/

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

no dia a seguir





não bastava ser inverno
fizeste que o fosse
também dentro de mim

o amor por vezes desacontece
devia sabê-lo

não sou cínico
não te agradeço a lição

invento o sol
vou ver o mar

entro em mim
fabrico um verão

(leirosa; carregar o saco; 2019)

https://ahcravo.com/2019/11/27/cronicas-da-xavega-327/

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Uma Poesia Para Raul - IV



Luz que emana da fonte
Um anjo bom que pintou em minha loucura
Contos... Fadas... Lendas... Poesias...
Invento novas formas de sofrer
Apenas tu és o antídoto para minha sanidade
Negas um beijo maldito que...
Acordará um príncipe dentro d'eu!


Manoel Hélio Alves é poeta, natural de Macarani, Bahia.


aforismos (2)





pendurou o nome
no cabide
vestiu o casaco e saiu
vendera-se

(ilha da morraceira; mexer; 2019)

https://ahcravo.com/2019/11/26/a-beleza-do-sal-70/

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

e eu





meto a chave
abro a porta entro em casa

não está ninguém
continua a não estar ninguém

será que fiquei lá fora

(torreira; regata da ria; 2019)

https://ahcravo.com/2019/11/25/os-moliceiros-tem-vela-381/

sábado, 23 de novembro de 2019

aforismos (1)




aqui onde tudo tem de ser
sustentável
começa a ser insustentável viver

(torreira; safar redes; 2019)

https://ahcravo.com/2019/11/23/postais-da-ria-334/

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Uma Poesia Para Raul - III



Não sou nenhum Dom Juan
Ainda estou jogando os primeiros dados
Com a fúria de um eunuco-homem
Poesia não dá camisa à ninguém
Mas nos deixa bem leves depois de declamá-las
Jogue o Tarô quem sabe os arcanos 
Possam dizer o quanto dói a sua falta
Alice Angélica você está rindo d'eu
Não quero ser um diamante nas mãos de mendigos
Quero ser um garimpeiro na busca eterna do verso perfeito
Nem que isso me custe a solidão
O Universo é apenas um ponto no infinito


Manoel Hélio Alves é poeta, natural de Macarani, Bahia.

era tempo de




(porque o zé mário foi ter com o maia gomes)

era o tempo de

era o tempo de
sentavas-te ao piano
e dizias

vamos fazer uma canção
para o zé mário branco

era o tempo de
tu estares vivo
o zé mário também
e todos sonharmos

como se chovesse
ao contrário
os amigos vão-se

foi o tempo de

(torreira; 2016)

https://ahcravo.com/2019/11/19/cronicas-da-xavega-326/

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Uma Poesia Para Raul - II



São aproximadamente vinte horas e quarenta minutos!
Quanto tempo falta para você me conhecer?
Saber que eu sou um poeta de "mentira"!
Fico iludido, querendo achar o verso perfeito...
As contas sobre a mesa, o café ralo, o pão dormido;
E eu sonhando em ser poeta!?
Sem o dinheiro da passagem, sem cartão de visitas
Não tenho roupas bonitas e nem amigos importantes
Apenas o meu velho dicionário de sebo
Os meus velhos livros e minha alma que delira
Talvez eu entre na Academia Brasileira de Letras
Afinal, fazem pacotes turísticos para o Rio!
Sou um poeta de "mentira", mas porque está dor não passa?


Manoel Hélio Alves é poeta, natural de Macarani, Bahia.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

da ignorância




os livros
amontoam-se

as palavras os sonhos
ficam e partem

a memória
o esquecimento
o residual

a cada dia
estou mais ignorante

(morraceira; rer; 2019)

https://ahcravo.com/2019/11/08/a-beleza-do-sal-69/

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

porque






somos a geração
do sonho
e também
a da desilusão

porém
não é de nós
deixar o sonho morrer
mas sim
tudo fazer para
matar a desilusão

(murtosa; regata do emigrante; 2012)


https://ahcravo.com/2019/11/07/os-moliceiros-tem-vela-380/

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Uma Poesia Para Raul - I



I

Tenho saudades da terra onde nasci
Dos seus rios, vales e montanhas
Da minha casa e do meu povo
Do cheiro do cacau e das pedras preciosas

Por terras estranhas estou a vagar
Aqui encontrei meu amor. Sofro minhas dores
São quase quatro décadas longe de ti
Guardo na memória cada lembrança do passado

O que será d'eu sem suas raízes
O que será d'eu com tantas saudades
O que será d'eu terra amada
Tão distante do meu lar


Manoel Hélio Alves é poeta, natural de Macarani, Bahia. 

domingo, 3 de novembro de 2019

ó tu





no tecer da rede
no fazer das malhas
o saber do pescador

a arte do engano
meticulosa
elabora armadilha

espero que saibas
que não sou peixe

ó tu
pescador de águas
turvas

(torreira; safar redes; 2019)

https://ahcravo.com/2019/11/03/postais-da-ria-333/

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

desde que





traz pela mão
devagar
os teus mortos
senta-os à tua mesa

conversa com eles
como se

depois levanta-te
caminha até ao mar
deixa que os salpicos das ondas
trazidos pelo vento
te molhem o rosto

são estas as tuas lágrimas
desde que

(torreira; 2012)

https://ahcravo.com/2019/11/01/cronicas-da-xavega-325/