quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

NO MEIO DO CAMINHO de Eugênio Giovenardi

No meio do caminho de Eugênio Giovenardi





Quando soube que o escritor Eugênio Giovenardi ia lançar uma biografia, fiquei muito animado e me preparei para a leitura. Sem perda de tempo, queria me deleitar com a nova obra do nobre escritor, que, dono de uma inteligência privilegiada, sabe transferir para os livros sua excepcional capacidade de observação. Após viajar pelo sertão nordestino com a triste saga de Heliodara (2010) e pelo belo convívio com As árvores falam (2012)esperei encontrar em No meio do caminho (editora Movimento, 2014) a tradicional história de um homem, as brincadeiras de criança, o convívio familiar, as inquietudes da adolescência; enfim, a tradicional biografia. Mas, para a minha agradável surpresa, encontrei muito mais nas 176 páginas deste intrigante volume.
O que pude perceber foi uma relação íntima do autor de Silêncio (2011), com os dogmas e a cultura da igreja católica, que lhe foram incutidos desde o nascimento. Descendendo de família italiana — como se percebe pelo sobrenome Giovanardi, que foi aportuguesado para Giovenardi —, o berço da poderosa Igreja Católica, o menino vê aumentada ainda mais a influência da religião sobre a família. Com a mestria que lhe é peculiar, Eugênio faz um paralelo entre sua vida e a igreja e a rotina da igreja e a vida. Depara-se com imprecisões que não lhe são esclarecidas, apenas colocadas como dogmas que não devem ser questionados, sob pena de estar cometendo grave pecado, pois, mesmo não expondo ou declarando, tudo pode ser visto e ouvido; portanto, passível de castigo. A luta interna para livrar sua mente dessas amarras, é deveras dolorosa; a dor que parece transpassá-lo nos atinge em cheio, como leitores. Sem dúvida, uma leitura visceral, sobretudo para mim que, também, tenho formação católica. São conflitos que muitos de nós não temos a determinação de enfrentar, mas que Eugênio teve, e com bastante coragem. E, neste livro sincero, resolveu nos revelar grande parte desses conflitos, bem às vésperas de completar os seus oitenta anos. Diferentemente das pessoas que apenas se contentam com ritos e celebrações da igreja, Eugênio pergunta para si mesmo: “Por que preciso de um Deus em minha vida?”; e como “A consciência é um árbitro implacável”, ele, com clareza, nos revela algumas das respostas que pacificaram o seu espírito.
Tão marcante foi o convívio e a relação com a igreja que, passados cinquenta anos de sua pacificação, todas essas marcas podem não ter desaparecido por completo. Ou será que as minhas próprias convicções nublaram a clareza de minha interpretação? Entretanto, busco no próprio autor amenizar minha consciência e meu medo: “Penso que sejam as dúvidas que me fazem viver e sobreviver.” A cada imprecisão, uma luta do leitor para tentar combater internamente o que lê. Diante de tantas agruras nos deparamos com o prazer imensurável sentido pelo autor ao se libertar das imposições e da crença, de poder questionar sem temer respostas, como fez Anísio Teixeira. Sentimos a sensação de um voo único e novo dentro da multidão em plena Paris. E como se não bastasse: “De repente, Paris se esvaziou. Silenciaram as manifestações de protestos. Agora éramos os únicos habitantes da cidade.” O ano era 1968 e, em plenas barricadas, surge numa esquina a jornalista finlandesa (dona Hilkka Mäki) que buscou sua opinião sobre a então situação política vivida pela França. Desse encontro se inicia uma caminhada longa e duradoura. Quebrando mais um paradigma da igreja, onde a mulher é acusada de tantos males.
Outra característica marcante que me remete aos clássicos franceses, como Stendhal, são as citações utilizadas pelo autor, como Carl Sagan, onde “É permitido não ter certeza”, Agostinho de Hipona, santo, filósofo e teólogo do início do cristianismo, T. S. Eliot, “A cultura de um povo é a encarnação de sua religião”, Fiódor Dostoievski: “Se Deus não existe, tudo é possível”, Derek Walcott: “É ilusório pensar que seja possível prescindir dela (religião) ou ser indelevelmente formado por ela.” Tais citações mostram que tantos já se debruçaram sobre tais temas, mas, mesmo sendo tão discutido, Eugênio consegue nos surpreender e instigar o pensamento.
Sem dúvida, No meio do caminho é um livro polêmico, intrigante e profundo. E demonstra um elevado nível filosófico e literário. Escrito de forma madura por quem chegou a um alto nível de conhecimento, de vida e de domínio da técnica literária, pautada na leitura e na vivência plena de um observador nato. Surpreende, pois como já foi dito, a fuga da forma habitual como são escritas as biografias, enriquece ainda mais a obra, que abre um horizonte incógnito e íntimo. Um mundo secreto, apesar de aparentemente conhecido. É como se percorrêssemos todos os dias uma floresta, por suas trilhas mais diversas e, de súbito, saíssemos do caminho conhecido para nos depararmos com o interior da selva, e passássemos a enxergá-la, desde a visão microscópica à amplitude das copas frondosas de uma complexa mata espessa. Uma viagem para poucos que não tenham medo de se perder na imensidão das certezas e das dúvidas.
Como um clássico, é impossível terminarmos a leitura sem sairmos marcados pelo surpreendente mundo que nos foi apresentado pelo mestre Eugênio Giovenardi.


Daniel Barros, 46 anos, alagoano de Maceió. Foi colaborador em O jornal e Gazeta de Alagoas, na década de 1990. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Alagoas no ano 1992. Em Brasília, desde o fim dos anos 1990, onde pós-graduou-se em Segurança Pública e iniciou sua carreira literária publicando: O sorriso da cachorra, romance, editora Thesaurus, Brasília 2011; Enterro sem defunto, romance, LER editora, Brasília 2013. Participa das coletâneas: Contos eróticos, editora APED, Rio de Janeiro, 2013; e de Enquanto a noite durar, contos sobrenaturais, editora APED, Rio de Janeiro 2013. É membro da Associação Nacional de Escritores-ANE.