segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Capítulos 27 & 28 - O sorriso da cachorra

O Sem-terra
Acabara a reunião do C.A. DS e Ramos chamaram André para tomar uma cachaça. Ele achou estranho, pois Ramos não bebia, mas aceitou. Eles falaram que gostariam de apresentá-lo a uns amigos camponeses, companheiros que estavam desenvolvendo um trabalho de conscientização no campo e que precisavam de apoio na cidade. Tinham marcado num bairro da periferia, Cambona. Pararam em um boteco, pediram duas cachaças, já que Ramos não bebia, e beberam enquanto aguardavam os companheiros. Antes que bebessem outra lapada, chegou um homem magro, baixo, cabelos negros cacheados e um pouco corcunda, de pele oleosa, que trazia na mão uma pasta preta. Sentou-se e apresentou-se: era Cajuza, da executiva estadual do Movimento Sem-Terra (M.S.T.). Pediram mais umas cachaças, beberam e puseram-se a conversar; foram direto ao ponto.
— Fizemos uma ocupação de uma fazenda em Delmiro Gouveia e precisamos de ajuda aqui na cidade...
— Como? – perguntou André.
— Pretendemos ocupar o INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária –, para pressionar o governo a desapropriar a fazenda.
— Ótimo, no que precisam da gente?
— Apoio logístico e político, mas por enquanto é preciso de muito segredo.
— Claro! Tenho uns amigos do movimento anarquista que podem nos ajudar.
— São de confiança?
— Sim, um deles, o médico e estudante de jornalismo, é meu primo e um bom revolucionário.
— Tem certeza?
— Temos – respondeu Ramos.
— Podemos fazer várias faixas de divulgação e arrecadar comida e contribuições – falou DS.
Discutiram mais alguns detalhes e passaram a falar sobre o M.S.T., sobre o socialismo, sobre a vida pessoal dos que se dedicavam à transformação e como era importante ter uma companheira que pudesse apoiá-los. André ficou maravilhado, via naquele companheiro um revolucionário. Falaram também do outro companheiro, que não pudera vir ao encontro, por estar liderando a base na fazenda.
Já no dia seguinte começaram as reuniões. Decidiram pedir pano e tintas nas lojas do comércio, alegando elaboração de faixas para um congresso científico na área de agronomia, e comida na porta dos supermercados, para ajudar os flagelados da seca, o que não deixava de ser verdade. André precisou fazer algumas viagens. E um dia, antes de uma dessas viagens, Patrícia foi a sua casa, levando uma garrafa de vinho. Passaram a tarde inteira juntos. Quando ela foi embora, já era noite. Entregou-lhe um envelope e pediu para que ele só abrisse quando estivesse no ônibus. Era uma pequena carta escrita em um papel de carta com dois ratinhos impressos no final da folha, que dizia:




Meu amor

“Você entrou em minha vida como o sol que aclara um quarto escuro, quando se abre uma janela.”
Meu amor!
Estou com saudades, ontem foi maravilhoso, mas estou preocupada com esta viagem, espero que não aconteça nada com você nem com ninguém, tenha muito cuidado, e não esqueça que te amo muito.
Estou com a cabeça mal, porque sei que isso é muito importante para você, e eu não tenho o direito de atrapalhar a sua vida, por isso vou pensar muito se vou me acostumar com a ideia, para que não engane a mim mesma e nem a você.
Sabe meu amor? Não consigo pensar no hoje, no amanhã sem você, por isso estou muito preocupada com sua vida, não me imagino acontecendo algo com você, não quero perdê-lo por nada neste mundo, porque amo muito você.
“O amor é um laço invisível que nos prende para sempre.”

Patrícia
A cidade era pequena e ficava no sertão alagoano, vizinha a Delmiro Gouveia, onde morava Valdo, sujeito forte, 38 anos, branco de cabelos lisos e penteados para trás, barba rala. Muito carismático e simpático, cumprimentava todos que passavam ao seu lado, e lembrava Che Guevara. Apresentou-se a André, dando-lhe um forte abraço.
— Seja bem-vindo à luta pela terra, companheiro!
Fazia muito calor; o sertão estava muito seco. Seus cabelos estavam molhados de suor, sua pele branca ardia ao sol causticante do sertão. Assim, atravessaram a praça da matriz e desceram a rua à esquerda.
— Vamos almoçar na minha casa, o senhor gosta de bode? – disse Valdo.
— “Vige Maria!” Sou doido por carne de bode! Mas não me chame de senhor, não, que sou um cabra moço ainda.
— Então eu sou velho? Você só me chama de senhor (risos).
— Tudo bem!
— Minha mulher tá já terminando de guisar o bode, vamos beber uma cachaça? –disse Valdo.
— Claro, estou com a garganta seca. Podemos tomar aqui neste boteco?
Passavam na frente de um pequeno bar de duas portas altas, pintadas de um azul desbotado e paredes brancas amareladas pela poeira, dentro um balcão de madeira, onde homens bebiam em pé.
— Não! Não é seguro bebermos assim desprotegidos.
— Tá certo.
— Vamos ao bar do Alísio, um estudante da faculdade de Maceió, que é companheiro nosso. O bar é do pai dele e lá é seguro.
— Então vamos.
Chegaram ao bar, que tinha três portas, também altas. O salão tinha três ou quatro mesas e um balcão de madeira com uma passagem que também dava para os fundos da casa. Atrás do balcão, um sujeito franzino, branco, rosto enrugado e voz rouca, que usava um chapéu de couro, típico do sertão, igual ao que Valdo usava. Os olhos eram esverdeados. Mas mantinha um olhar firme e sincero. Quando eles entraram, todos que estavam no bar olharam para eles e os cumprimentaram.
— “Seu” Alísio, este cabra é um estudante da faculdade, que veio aqui me ajudar com minhas cabritas.
— Que bom “seu” Valdo, muito prazer “seu” moço – disse Alísio.
— O prazer é meu.
— O moço não gostaria de molhar o rosto com água fria – notou que André estava com o rosto suado.
— Sim! Gostaria muito.
— Então venha aqui dentro.
Entrou no bar e do lado da cozinha havia uma bacia de água limpa. Lavou o rosto e molhou o pescoço. Quando voltava para o salão do bar, pôde ver encostada embaixo do balcão uma espingarda 12, de dois canos curtos, que estava bem ao alcance de “seu” Alísio. Valdo estava sentado em uma mesa no canto, perto da saída dos fundos. Sentou-se e pôde notar que da mesa dava para ver todo mundo que descesse a rua e falou, com satisfação:
— Boa mesa!
 “Seu” Alísio colocou uma dose de cachaça em um copo americano para ele, e para Valdo encheu o copo. Em seguida, deixou a cachaça sobre a mesa.
— já vou trazer o umbu.
Voltou com alguns e mais um prato de pé, pescoço e asa de galinha.
— “Seu” Valdo tá como o senhor gosta! E ocê, moço, gosta? – disse para André, que já com um pescoço de galinha na mão acenou com a cabeça que sim.
André bebeu sua cachaça e se serviu de outra. Valdo falou que bebia só aquele copo, que entornou de uma só vez. Conversaram sobre amenidades, clima, as cabras e questões técnicas.
Chegando à casa de Valdo, que era num sítio próximo da cidade, já pôde de longe sentir o cheiro gostoso do bode guisado. Entraram e Valdo apresentou sua mulher: era branca e gorda, muito séria e envelhecida. Seu filho mais velho era muito parecido com o pai, que tinha mais três filhos menores, todas meninas. Comeram o bode com fava, farinha de mandioca, feita pelo próprio Valdo, e pimenta. Estava maravilhoso, falou André. Depois do almoço beberam um pouco de café e passaram a conversar sobre os preparativos da ocupação do INCRA. Passou por lá quatro dias, e na última noite recebeu um bilhete de um portador vindo de Maceió: era de Patrícia.

Meu amor
Hoje acordei pensando em você, e morrendo de saudade, estou contando as horas para encontrar você.
Encontrei isso e lembrei-me de você;
“Quando as dificuldades tornam-se imensas, os desafios tornam-se apaixonantes.” D. Hélder Câmara.
Eu amo você mais que tudo nessa vida.
Patrícia

Ocupação do Incra
André voltou a Maceió e engajou-se nos preparativos. Trouxe consigo algumas frases para as faixas fornecidas por Valdo, que eram umas quatro ou cinco, mas o grupo confeccionou mais de vinte faixas, feitas na casa do médico, seu primo. Foram arrecadados mantimentos para 10 dias de ocupação. Patrícia ficou encarregada de conseguir remédios com seu pai, que era diretor do maior posto de saúde da cidade. Pronto! Estava tudo preparado.
 Era uma madrugada fria quando ele acordou para ir para a Praça Centenário, onde ficava o INCRA. Chegando lá ficaram sentados no chão como se fossem quatro bêbados, ele, Ramos, Helena e o médico. Quando eram mais ou menos 05h30 da manhã, os caminhões foram vistos contornando a praça. Eram quatro deles, cheios de gente. Foram parando na frente do INCRA, e os quatros foram pegando o guarda.
— Tenha calma, não é um assalto; somos sem-terras e vamos ocupar o prédio. Nada vai lhe acontecer, somos muitos e será perfeitamente justificado o senhor não reagir.
O guarda estava morrendo de medo, e não reagiu.
Os companheiros e companheiras foram entrando e abrindo as portas. O guarda tremia. Nisso uma senhora magra, de cor pálida e com uma criança no colo, falou com o guarda.
— Carma! Não queremos machucar ocê, só tamos defendendo ocê, sua família e a nossa. Ocê é nosso irmão trabalhador, e nada acontecerá com ocê.
André encheu os olhos de lágrimas, e devolveu a arma que tinham pegado do guarda, sem bala, é claro. O guarda não aceitou e disse:
— Pode ficar tranquilo, vou ficar bem!
Ao tempo que as pessoas foram se acomodando, o dia foi clareando e os funcionários do INCRA chegando; e depois veio a polícia. Valdo assumiu de imediato as negociações, através das grades do portão trancado por dentro. A imprensa, já previamente avisada por seu primo que, como estudante de jornalismo tinha seus contatos, chegara. Descera do último caminhão uma mulher chorando muito. Ramos a acolheu imediatamente. Ela tinha nos braços uma criança, sua filha. O primo dele a examinou: estava morta, havia morrido de desnutrição. Ramos, então, assumiu a situação.
— Eu vou cuidar de tudo.
Valdo decidiu não divulgar a morte na imprensa. O movimento discordou, pois seria uma boa notícia e de grande impacto. Valdo falou:
— É a vida de um pequeno companheiro que se foi. Não vamos “ganhar” nada com isso, não admito!
Foi em direção da mãe da criança e a abraçou. Ramos saiu com a mãe e a criança. André quis acompanhá-lo, mas Valdo não deixou.
— O Ramos resolve! Preciso de você.
Não estava preparado para aquilo, nunca tinha visto alguém morrer de fome. Sabia que acontecia, mas ver era diferente.
— André, preciso de você aqui – repetiu. – Será que vai conseguir? Pode chorar, mas não agora, não deixe que ninguém veja. Vai conseguir?
André respondeu:
— Vou! Vamos.
Foi então para dentro do INCRA. Iniciaram-se as negociações, a polícia não entraria, pois seria um massacre.
Oito dias se passaram, e as negociações com o INCRA não avançavam. A comida já estava no fim. André, que estava dormindo no acampamento, já havia contraído sarna e a coceira o incomodava muito, por conta do acampamento estava sem tempo para a eleição do C.A., onde era candidato a coordenador-geral, mas não tinha tempo de ir fazer campanha. Valdo o chamou numa certa noite e falou que era importante para o movimento que ele ganhasse aquela eleição.
Faltava uma semana para a eleição. Ele voltou e entrou nas salas de aula, com a “força de uma capivara”, cheio de verdade e de coragem. Não falava sobre o MST, orientação de Valdo. Discursava, com desenvoltura, chegando às vezes a se emocionar. A ocupação estava ficando difícil, a comida estava acabando. Cajusa convocou uma reunião e procurou André para participar. Este perguntou o que fazer, e Valdo falou.
— Onde podemos conseguir comida? Com fome, o movimento enfraquece.
— Não há tempo para uma campanha – falou André.
— Vamos fazer um saque em algum supermercado – falou alguém.
— Tem algum aqui próximo? – perguntou Valdo.
— Sim! A menos de quinhentos metros – calculou André.
— Será lá! Valdo, André e Cajusa estão responsáveis pelo levantamento.
Alguns dias depois, os sem-terra saíram em passeata, em frente ao supermercado. E entraram de vez. Dois já estavam dentro e pegaram o gerente que tinha duas armas dentro da gaveta do escritório, informação levantada antes do saque. O dia do saque era o mesmo dia da eleição do C.A. Então Valdo decidiu que os estudantes não participariam do saque; ele deveria ganhar a eleição.

Não tardou para o governo ceder à pressão, e dias depois do saque, desapropriou a fazenda em questão, e assim surgiu o primeiro assentamento ligado ao M.S.T. em Alagoas.



*Daniel Barros, 45, escritor e fotógrafo alagoano residente em Brasília, é autor dos romances O sorriso da cachorra, Thesaurus, 2011, Enterro sem defunto, Editora LER, 2013, Coletânea Contos Eróticos e Contos Sobrenaturais Enquanto a Noite Durar editora APED, 2013.